Cidade do rock, da criatividade, da party people e dos espíritos livres. Nas décadas 1980 e 1990 inscreveu-se na História como Madchester e viu nascer a cultura acid house e rave. Mas bem antes disso, foi decisiva na Revolução industrial: “foi aqui aplicada a máquina a vapor à indústria têxtil pela primeira vez em 1789; a primeira linha férrea de passageiros foi também construída aqui, ligando a cidade com Liverpool em 1830; está ligada desde 1894 por um canal ao mar” (Wikipedia).
Manchester não é uma cidade airosa, nem um destino turístico digno de romarias, apesar dos seus encantos, mas deverá estar na bucket list de quem gostar de viagens urbanas e de explorar contra-culturas. É uma cidade à minha medida, ao ponto de lá ter ido duas vezes em menos de seis meses, e de já ter a próxima visita em agenda: o que até nem é grande feito, pois a Easyjet tem voos baratos e directos a partir do Porto, e cadeias como IBIS, Travelodge e Easyhotel oferecem hospedagem para os orçamentos mais contidos – também se podem espantar com o Hilton Deansgate, um edifício de 47 andares. E como se isto não fossem motivos que convençam, o centro é percorrido por 3 linhas de autocarros gratuitos e ecológicos.
A cidade divide-se por bairros, o meu favorito é Northern Quarter. Vivem aqui os artistas e habitam por cá os melhores bares e lojas. A cidade está recheada de curiosidades e eis que vos deixo a primeira: foi Tony Wilson, fundador da Factory Records e do The Haçienda, responsável pelo sucesso de Joy Division / New Order, Happy Mondays e muitos outros, que baptizou este bairro com esse nome. Explicar quem é Tony Wilson dava outro artigo, pelo que aconselho que o descubras através do filme “24 Hour Party People“ou da Wikipedia.

As lojas de discos Vinyl Exchange e Picadilly Records (que adoram artistas portugueses) estão aqui instaladas, tal como Fred Aldous a melhor loja de arts & crafts de que há memória. O Afflecks é um glorioso edifício do século XIX, reinventado pela eclética comunidade Mancunian: todos os recantos estão preenchidos por lojas de roupa e utilidades, artigos novos e usados, mas sempre com a dose certa de rock’n’roll até nas escadas, decoradas com rostos e citações dos mais charmosos filhos da cidade. Todos os edifícios têm segredos e estão em uso, sem grande degradação, acolhendo cinemas, clubs na cave, escolas, escritórios, papelarias, livrarias, lojas trendy ou hostels. É obrigatória uma visita ao Manchester Craft & Design Centre (pic acima) onde se reúnem alguns dos melhores artesãos, num edifício belíssimo que foi em tempos um mercado, e à loja Oklahoma, sempre cheia de novidades e presentes para os amigos.
Apesar da herança cor-de-tijolo de Manchester, a cidade é moderna e vibrante. Em 1996, um ataque bombista do IRA deixou 0 vítimas mas dizimou uma zona comercial que acabou por ser reerguida com nova roupagem, o Arndale. Lojas para todas as carteiras e dois espaços de alimentação onde reina a multiculturalidade: dentro do shopping há uma praça de restaurantes e tasquinhas dos quatro cantos do globo, ali bem perto – no Corn Exchange – juntam-se os sabores do Índico, do Pacífico e do Atlântico Sul. E já que o assunto é comida, The Printworks também oferece algumas opções, mas o Northern Quarter é bem mais diversificado e tem preços mais convidativos. Uma sanduíche de grilled cheese da Northern Soul vai mudar a vossa vida (pic abaixo), e o Rudy’s Pizza é conhecido como melhor pizzaria fora de Itália (reserva obrigatória), o prémio de coolness vai para o Crazy Pedro’s e ninguém serve café como o Fig + Sparrow.

É impossível não falar de música quando o assunto é Manchester: Joy Division, New Order, Oasis, Happy Mondays, Stone Roses, Charlatans, The Smiths, The Fall, Buzzcocks e tantos, tantos outros. E, claro, não podemos esquecer o futebol como deve ser jogado ali bem ao lado: entre Manchester United e Manchester City, apoiem sempre os segundos que os primeiros são para estrangeiros, turistas e malta que não percebe lá muito do desporto, como tantas vezes já ouvi dizer. Já é tradição atravessar o canal e bater uma fotografia em frente ao Salford Lads’ Club, tal como os Smiths fizeram para o seu disco “The Queen Is Dead” em 1986. Curiosidade: o edifício fica junto à Coronation Street real, mas podem sempre ir visitar o set de gravação da mais célebre soap opera britânica.
É altamente recomendável uma visita ao Museu do Futebol, em terreno neutro e no centro da cidade, um edifício moderno e bonito, de entrada gratuita e com o melhor elevador de interior. Bem, na verdade, é um funicular 😊 E por falar em museus, o Museum of Science and Industry apresenta-nos os mais importantes momentos da História da cidade nestes campos, com um interessante acervo aeronáutico. Mas confesso que o meu museu favorito é o Imperial War Museum, um dos cinco existentes nesta rede britânica de artefactos da I e II Guerra Mundial. Em plena comemoração do centenário do primeiro conflito, proporciona uma viagem por filmes, fotografia, armamento, roupa, e outras memórias que não se devem esquecer no tempo. Na cidade das artes não pode falhar a visita à Manchester Art Gallery, que entre uma exposição permanente e exposições temporárias, sente o pulso do modernismo e reconta as estórias locais através de diferentes olhares.

A vida nocturna é perfeita para recuperar o fôlego de longos dias de passeio e compras. No Twenty Twenty Two há mesas de ping pong e campeonatos noite dentro, o Common recebe noites de quiz e muito mais, bons cocktails ali pelo El Capo, o Cord Bar tem sempre jogos de tabuleiros, em cada pub há animados karaokes, no HOME há cinema de autor, e o Frog & Bucket é o melhor clube de comédia a visitar. Mas atenção: a cidade é cool mas o dress code nocturno requer algum cuidado. E, já sabem, as festas começam cedo.
Muito mais há para ver, fazer e viver em Manchester, uma cidade que conquista a cada visita e que esconde óptimos segredos para lá do que os guias de viagem nos mostram. Em agitação permanente, imaginem só que na última visita estavam a rodar Peaky Blinders, a série BBC com Cillian Murphy e Tom Hardy, ali bem em frente ao meu hotel, e eu a ver tudo sem grandes barreiras policiais. Precisam de mais dicas? Falem comigo 😉